Em setembro, os judeus comemoram principalmente Rosh Hashanah, o Ano Novo judaico, e Yom Kippur, o Dia do Perdão, além de Sucot e Simchat Torá. Essas datas formam o período mais intenso do calendário hebraico, conhecido como os Grandes Feriados, ou Yamim Noraim, os Dias Temíveis. Dependendo do ano, elas podem cair no fim de setembro ou no início de outubro, porque o calendário judaico é lunar e se ajusta ao solar.
Quem não conhece o calendário hebraico costuma estranhar a variação. As festas não têm data fixa no calendário gregoriano: elas seguem o mês de Tishrei, que geralmente coincide com setembro e outubro. Por isso, a pergunta sobre o que se comemora em setembro tem uma resposta que muda um pouco a cada ano, mas gira sempre em torno dos mesmos acontecimentos.
O calendário judaico e o mês de setembro
O calendário judaico é lunissolar. Cada mês começa com a lua nova e tem 29 ou 30 dias, totalizando cerca de 354 dias por ano. Para não perder a sincronia com as estações, um mês extra é acrescentado sete vezes a cada dezenove anos. É esse mecanismo que faz as festas caminharem entre setembro e outubro no calendário gregoriano.
O ano judaico começa no mês de Tishrei, mas esse não é o primeiro mês na contagem bíblica. O mês de Nisan, que cai na primavera, é considerado o primeiro, enquanto Tishrei é o sétimo. A tradição explica que o Ano Novo marca a criação do mundo e o julgamento anual de cada pessoa, e não necessariamente o início da contagem dos meses.
Antes de Tishrei, vem o mês de Elul. Ele é dedicado à preparação espiritual, com orações penitenciais chamadas Selichot, leitura de salmos e um exame de consciência sobre o ano que passou. Em muitas comunidades, os Selichot começam na semana anterior a Rosh Hashanah, à meia-noite ou de madrugada.
Rosh Hashanah: o Ano Novo
Rosh Hashanah, literalmente “cabeça do ano”, é comemorado nos dias 1 e 2 de Tishrei. É o momento em que se anuncia a chegada de um novo ciclo e se abre o período de arrependimento que culmina em Yom Kippur, dez dias depois. Nas sinagogas, o toque do shofar, um instrumento feito de chifre de carneiro, é o som mais marcante da festa.
Em casa, a mesa ganha símbolos. Maçã mergulhada em mel representa o desejo de um ano doce. A romã simboliza fartura, pelas muitas sementes. O pão chalá é servido redondo, e não trançado, para lembrar o ciclo do ano. Há também o costume do tashlich, de ir até um rio ou mar e jogar simbolicamente no fundo da água os pecados do ano anterior.
A saudação típica é “Shaná Tová”, que significa “um bom ano”, e “Gmar Chatimá Tová”, para um bom selo no livro da vida. Mesmo judeus pouco religiosos costumam participar da ceia e visitar a família, o que faz de Rosh Hashanah um dos momentos de maior encontro comunitário do ano.
Yom Kippur: o Dia do Perdão
Yom Kippur, no dia 10 de Tishrei, é o dia mais sagrado do calendário judaico. Ele encerra os dez dias de arrependimento iniciados em Rosh Hashanah. A tradição ensina que, nesse dia, o julgamento do ano é selado, e por isso o jejum de aproximadamente 25 horas é amplamente observado, inclusive por muitos judeus seculares.
Além do jejum, a data envolve abstenção de trabalho, de relações conjugais, de banhos de prazer e do uso de couro. A véspera é marcada pela oração Kol Nidre, cantada com uma melodia solene. No fim do dia, o shofar é tocado novamente, e as pessoas se cumprimentam com a frase “próximo ano em Jerusalém”.
O costume de pedir perdão a outras pessoas antes da data é central. A ideia é que o perdão divino não substitui a reparação feita a quem foi prejudicado. Por isso, é comum que judeus observantes procurem amigos, familiares e colegas nos dias anteriores para acertar pendências e mágoas.
Sucot e Simchat Torá
Cinco dias depois de Yom Kippur começa Sucot, a Festa das Cabana, que dura sete dias. Ela lembra os quarenta anos em que o povo de Israel viveu no deserto após a saída do Egito. Durante a festa, famílias constroem uma sucá, uma cabana rústica com teto parcialmente aberto, e fazem as refeições ali.
Outro símbolo é o conjunto das quatro espécies: o lulav, feito de ramos de palmeira, murta e salgueiro, e o etrog, um cítrico aromático. Eles são segurados juntos durante as orações, representando a união de diferentes tipos de pessoas e a gratidão pela colheita.
No oitavo dia vem Shemini Atzeret, e logo depois Simchat Torá, quando se conclui e se reinicia a leitura anual da Torá. A celebração é alegre, com danças com os rolos da Torá, cantos e, em muitas comunidades, doces para as crianças. É um dos momentos mais festivos de setembro.
| Data comemorada | Data no calendário hebraico | Sentido principal | Costume marcante |
|---|---|---|---|
| Selichot | Fim de Elul | Preparação e arrependimento | Orações antes do amanhecer |
| Rosh Hashanah | 1 e 2 de Tishrei | Ano Novo e julgamento | Toque do shofar e maçã com mel |
| Tzom Gedaliah | 3 de Tishrei | Jejum pela destruição do Templo | Jejum do amanhecer ao anoitecer |
| Yom Kippur | 10 de Tishrei | Dia do Perdão | Jejum de 25 horas e Kol Nidre |
| Sucot | 15 a 21 de Tishrei | Trajeto pelo deserto | Cabana, lulav e etrog |
| Simchat Torá | 22 e 23 de Tishrei | Conclusão da leitura da Torá | Danças com os rolos da Torá |
Por que nem tudo cai em setembro
Como o ano judaico tem cerca de onze dias a menos que o solar, as datas avançam em relação ao calendário gregoriano a cada ano. O mês extra, chamado Adar II, é inserido em anos específicos para corrigir essa defasagem. O resultado é que Rosh Hashanah pode ocorrer entre o início de setembro e o início de outubro.
Em alguns anos, todos os feriados de Tishrei cabem em setembro. Em outros, Yom Kippur e Sucot já caem em outubro. Por isso, quem planeja uma viagem a Israel ou quer participar de uma celebração deve conferir o calendário do ano específico, e não se orientar apenas pelo mês.
Há ainda datas que podem aparecer em setembro, dependendo do ano, como o Tzom Gedaliah, um jejum menor que recorda o assassinato de Gedaliah ben Ahikam, governador da Judeia após a destruição do Primeiro Templo. Ele é observado no dia seguinte a Rosh Hashanah, com exceção do Shabat, quando é adiado.
Como diferentes comunidades vivem setembro
O judaísmo não é monolítico. Comunidades ortodoxas seguem rigorosamente as restrições de trabalho e os horários das orações. Comunidades conservadoras e reformistas mantêm os símbolos e o sentido das festas, mas com adaptações. Judeus seculares podem participar apenas do jantar de Ano Novo ou do jejum de Yom Kippur, sem frequentar a sinagoga.
As tradições também variam conforme a origem. Judeus ashkenazim, de ascendência europeia, têm costumes culinários como o gefilte fish e o pão redondo. Judeus sefarditas e mizrahim, do Oriente Médio e do norte da África, costumam servir pratos diferentes e entoar melodias próprias. Os horários dos Selichot também mudam: algumas comunidades rezam à meia-noite, outras de madrugada, outras antes do amanhecer.
Em Israel, o período afeta o país inteiro. Yom Kippur é feriado nacional, e as estradas ficam praticamente vazias. Sucot provoca uma movimentação intensa de famílias construindo cabanas em varandas e quintais. O ano letivo e o calendário de trabalho se organizam em torno dessas datas.
O que o historiador explica sobre setembro
Segundo Marcos Vinícius Adler, historiador com pesquisa em cultura judaica, a associação entre setembro e as festas judaicas é correta, mas precisa de nuance. “A nosso pedido, ele explicou que o calendário hebraico é o protagonista, não o gregoriano. Setembro concentra os Grandes Feriados na maioria dos anos, mas a data exata depende da lua e do ajuste solar. Além disso, nem todo judeu comemora do mesmo jeito, e essa diversidade é parte da tradição”, avalia.
Ele lembra que o período não é apenas de festa, mas de reflexão. Os dias entre Rosh Hashanah e Yom Kippur são chamados de Dez Dias de Arrependimento, e a tradição pede que a pessoa revise suas atitudes, peça perdão e faça planos para o ano seguinte. A alegria de Sucot vem depois, como celebração da proteção e da colheita.
Resumo do que se comemora em setembro
Em setembro, os judeus celebram o Ano Novo, o Dia do Perdão, a Festa das Cabanas e a conclusão da leitura da Torá. O conjunto marca a passagem de um ciclo para outro, com jejum, orações, refeições simbólicas e encontros familiares. É um período de balanço, gratidão e recomeço.
Para quem quer acompanhar ou participar, vale conferir as datas do ano, respeitar os costumes de quem observa e lembrar que a tradição judaica valoriza tanto o ritual quanto a reparação das relações. Setembro, nesse sentido, é menos sobre um único feriado e mais sobre um processo que começa com a preparação em Elul e termina com a alegria de Simchat Torá.