Em que ano foi a era glacial?

Não existe um único ano para a era glacial. O que se chama popularmente de «era glacial» costuma ser a última glaciação, que começou há cerca de 115 mil anos e terminou há aproximadamente 11,7 mil anos, com o auge do gelo por volta de 20 mil anos atrás. Nesse intervalo, geleiras continentais cobriram boa parte da Europa e da América do Norte, o nível do mar era até 120 metros mais baixo e o clima do planeta era, em média, cerca de 5 °C mais frio.

A confusão vem do uso da palavra «era». Em linguagem corrente, era glacial sugere um período curto e bem delimitado, com data de início e fim. Em geologia, o termo designa ciclos muito longos, com dezenas de milhares de anos, dentro dos quais existem fases frias — as glaciações — e fases amenas — os interglaciais. Entender essa diferença resolve a maior parte das dúvidas sobre datas.

O que é uma era glacial, tecnicamente

Uma era glacial, ou período glacial, é um intervalo prolongado em que existem calotas de gelo permanentes em pelo menos um dos hemisférios. Dentro dela, o clima oscila entre glaciações, quando as geleiras avançam, e interglaciais, quando recuam. A era glacial atual é a do Quaternário, iniciada há cerca de 2,58 milhões de anos.

Dentro dessa era, a última glaciação recebe nomes diferentes conforme a região: Würm nos Alpes, Weichsel no norte da Europa, Wisconsin na América do Norte, Mérida nos Andes venezuelanos. São o mesmo evento climático global, com nomes locais. Por isso, quem procura «o ano da era glacial» encontra respostas aparentemente contraditórias.

Por que não há um ano exato

As transições climáticas não acontecem em um dia. O avanço e o recuo das geleiras levam milhares de anos, e diferentes indicadores — gelo, pólen, sedimentos, corais — registram o mesmo evento com defasagens regionais. O fim da última glaciação, por exemplo, foi rápido em algumas latitudes e lento em outras.

Além disso, a datação tem margem de erro. Medições por isótopos em testemunhos de gelo e em espeleotemas permitem estimar com precisão de séculos ou milênios, não de anos. Dizer «a era glacial terminou em 9.700 a.C.» seria uma falsa exatidão: o número correto é uma faixa, não um ponto.

Linha do tempo das grandes glaciações

Os registros mais completos vêm de testemunhos de gelo na Antártida e na Groenlândia e de sedimentos marinhos. Eles mostram ciclos de aproximadamente 100 mil anos, modulados pela órbita e pela inclinação do eixo terrestre — a chamada teoria de Milankovitch.

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Período Quando ocorreu (aproximado) Característica
Glaciação de Gunz Há 600 mil a 450 mil anos Calotas extensas no hemisfério norte
Glaciação de Mindel Há 450 mil a 300 mil anos Ciclos mais curtos, com recuos parciais
Glaciação de Riss Há 200 mil a 130 mil anos Grande avanço de geleiras na Europa
Última glaciação (Würm) Há 115 mil a 11,7 mil anos Auge do gelo há cerca de 20 mil anos
Holoceno Há 11,7 mil anos até hoje Interglacial atual, clima relativamente estável

Como os cientistas descobrem essas datas

A técnica mais conhecida é a leitura de testemunhos de gelo. O gelo acumulado na Antártida guarda bolhas de ar com a composição da atmosfera de milhares de anos atrás. Ao perfurar camadas e medir isótopos de oxigênio e hidrogênio, os pesquisadores reconstroem temperatura e volume de gelo ao longo do tempo.

Sedimentos marinhos complementam o quadro. Conchas de micro-organismos registram a temperatura da água e o volume das calotas, porque a composição isotópica da água muda quando o gelo retém preferencialmente o isótopo mais leve. Datações por carbono-14, urânio-tório e luminescência ajudam a fixar as camadas no tempo.

Formações geológicas em terra confirmam o alcance das geleiras. Morenas, vales em forma de U, rochas polidas e blocos erráticos indicam até onde o gelo chegou. No Brasil, não houve glaciação continental no Pleistoceno, mas existem registros de clima mais frio e seco em regiões serranas do Sul e do Sudeste.

Como a última glaciação terminou

O fim foi tudo menos linear. Há cerca de 19 mil anos, o gelo começou a recuar; há 14,7 mil anos, o nível do mar subiu rapidamente; há 12,9 mil anos, houve um retorno ao frio, conhecido como Younger Dryas, que durou cerca de 1.200 anos. Só depois disso o clima esquentou de forma consistente.

As causas combinam fatores astronômicos e feedbacks internos do sistema climático. Mudanças na órbita alteraram a distribuição de radiação solar por estação. O derretimento de gelo alterou a salinidade do Atlântico Norte e, com ela, a circulação oceânica. A liberação de dióxido de carbono e metano pelos oceanos e pelo solo congelado amplificou o aquecimento.

Esse encadeamento explica por que o clima do planeta pode mudar rápido sem uma causa externa dramática. Uma vez iniciado o derretimento, ele se alimenta de si mesmo por meio de mudanças na reflexão da luz solar, na circulação dos oceanos e na cobertura vegetal.

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Estamos em uma era glacial agora?

Sim, tecnicamente. O Holoceno, iniciado há cerca de 11,7 mil anos, é um interglacial dentro da era glacial do Quaternário. Ou seja: vivemos em uma era glacial, mas em sua fase amena. Se o ciclo natural continuasse, dentro de algumas dezenas de milhares de anos haveria uma nova glaciação.

Há um debate científico sobre se esse ciclo ainda vale, dado o volume de gases de efeito estufa emitido pela atividade humana. Muitos pesquisadores argumentam que a próxima glaciação foi adiada ou cancelada pela interferência antrópica. A discussão é relevante para entender o Antropoceno como possível nova época geológica.

O que a última glaciação deixou no mundo

A herança é visível na paisagem. Fiordes noruegueses, lagos alpinos, colinas da Europa Central e os Grandes Lagos da América do Norte foram esculpidos pelo gelo. Solos férteis de regiões como o Meio-Oeste americano e o norte da Europa resultam de sedimentos depositados por geleiras.

No hemisfério sul, a glaciação afetou os Andes, a Patagônia e a Nova Zelândia, com geleiras que chegaram a altitudes mais baixas. Na África, o frio reduziu florestas e expandiu savanas, o que pode ter influenciado rotas migratórias humanas. A ligação entre a Ásia e a América pelo estreito de Bering, exposto pela queda do nível do mar, permitiu a colonização do continente americano.

Geleiras de hoje e o gelo que resta

As calotas que restaram — Antártida, Groenlândia e geleiras de montanha — são remanescentes da era glacial. A Antártida concentra cerca de 70 % da água doce do planeta. A Groenlândia guarda o equivalente a vários metros de elevação do nível do mar caso derreta por completo.

O recuo dessas geleiras é um dos indicadores mais claros do aquecimento recente. Medições por satélite mostram perda de massa em ambas as calotas nas últimas décadas. O ritmo varia por região e por ano, mas a tendência de perda é consistente.

Opinião de especialista

Rui Antunes Bittencourt, geólogo e professor de geociências, a nosso pedido: «Quando alguém me pergunta em que ano foi a era glacial, respondo que a pergunta está mal formulada, e isso não é pedantismo: é a chave para entender o clima. Glaciação não é um evento com data de nascimento e atestado de óbito; é um estado do sistema terrestre que dura dezenas de milhares de anos e termina em transições de milênios. A última começou há cerca de 115 mil anos e terminou há cerca de 11,7 mil, com o máximo de gelo por volta de 20 mil anos atrás. Se a pessoa guardar apenas um número, que guarde esse: 20 mil anos, o pico do frio».

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Perguntas frequentes

Em que ano foi a era glacial?
Não houve um ano único. A última glaciação durou de cerca de 115 mil a 11,7 mil anos atrás, com auge há cerca de 20 mil anos.

Quantas eras glaciais já existiram?
A Terra passou por pelo menos cinco grandes eras glaciais em sua história, e a atual é a do Quaternário, iniciada há 2,58 milhões de anos.

Os dinossauros viveram em uma era glacial?
Não. Os dinossauros não conviveram com as glaciações do Quaternário; eles desapareceram há cerca de 66 milhões de anos.

Vai haver outra era glacial?
Em escala natural, os ciclos apontam para uma nova glaciação em dezenas de milhares de anos. As emissões humanas podem ter alterado esse calendário.

Houve glaciação no Brasil?
Não houve glaciação continental no Pleistoceno. Existem registros de clima mais frio e seco em áreas serranas do Sul e do Sudeste.

Como sabemos a temperatura de 20 mil anos atrás?
Por isótopos de oxigênio e hidrogênio em testemunhos de gelo, por sedimentos marinhos e por indicadores em espeleotemas e pólen fóssil.

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