Com R$ 200 mil em uma LCI que pague 92% do CDI, o rendimento mensal fica em torno de R$ 1.578 líquidos. A conta considera CDI a 10,75% ao ano, o que dá 9,89% ao ano para o título e 0,789% ao mês. Como a LCI é isenta de Imposto de Renda para pessoa física, esse valor não sofre desconto: é o que efetivamente sobra.
O número parece menor que o de um CDB de 100% do CDI, mas a comparação direta engana. Um CDB de 10,75% ao ano com IR de 15% entrega cerca de R$ 1.453 líquidos sobre R$ 200 mil. A LCI de 92% rende mais na prática, apesar da taxa nominal menor, porque a isenção compensa a diferença.
O que é uma LCI e por que ela é isenta
LCI significa Letra de Crédito Imobiliário. É um título emitido por bancos para captar recursos destinados ao financiamento imobiliário. O investidor empresta dinheiro ao banco e recebe juros; o banco usa esses recursos para conceder crédito no setor.
A isenção de IR existe por incentivo legal: o governo quer baratear o funding da construção civil. Por isso, o rendimento da LCI é livre de Imposto de Renda para pessoa física, enquanto CDB, Tesouro Direto e fundos de renda fixa pagam alíquota regressiva de 22,5% a 15%.
Essa isenção tem preço. A taxa oferecida pela LCI costuma ser menor que a de um CDB equivalente, justamente porque o mercado desconta o benefício fiscal. Uma LCI de 92% do CDI pode equivaler a um CDB de 108% do CDI, dependendo do prazo.
Como calcular o rendimento mensal
O primeiro passo é transformar o percentual do CDI em taxa anual. Com CDI a 10,75%, uma LCI de 92% rende 9,89% ao ano. O segundo passo é converter para o mês em juros compostos: (1,0989)^(1/12) − 1 = 0,789%. O terceiro é multiplicar pelo patrimônio.
R$ 200 mil × 0,00789 = R$ 1.578. Esse é o rendimento do primeiro mês. No mês seguinte, a base já é maior, porque os juros são incorporados ao saldo. Em doze meses, o total acumulado passa de R$ 19 mil, e não de R$ 18,9 mil, por causa da capitalização.
Como na renda fixa em geral, o mês é contado em dias úteis. Um mês com 20 dias úteis rende um pouco menos; um com 22, um pouco mais. Para planejamento, a média mensal resolve.
Quanto rende R$ 200 mil em cada taxa de LCI
A tabela usa CDI de 10,75% ao ano como referência. As taxas de LCI variam por banco, prazo e valor mínimo, e mudam com frequência.
| Taxa da LCI | Rentabilidade anual | Rendimento mensal | IR | Líquido por mês |
|---|---|---|---|---|
| 88% do CDI | 9,46% | R$ 1.512 | isenta | R$ 1.512 |
| 90% do CDI | 9,68% | R$ 1.545 | isenta | R$ 1.545 |
| 92% do CDI | 9,89% | R$ 1.578 | isenta | R$ 1.578 |
| 95% do CDI | 10,21% | R$ 1.628 | isenta | R$ 1.628 |
| 100% do CDI | 10,75% | R$ 1.709 | isenta | R$ 1.709 |
| Poupança | 0,5% ao mês + TR | R$ 1.020 | isenta | R$ 1.020 |
Cada ponto percentual de CDI vale cerca de R$ 32 por mês sobre R$ 200 mil. Por isso, negociar taxa faz diferença: a diferença entre 88% e 95% do CDI chega a R$ 116 por mês, ou quase R$ 1,4 mil por ano.
A isenção vale quanto?
Para comparar LCI com CDB ou Tesouro, é preciso calcular a taxa equivalente bruta. Divide-se a taxa da LCI pelo fator (1 − alíquota do IR). Com 15%, o divisor é 0,85. Uma LCI de 9,89% ao ano equivale a 11,64% ao ano em um título tributado.
Isso significa que a LCI de 92% do CDI supera um CDB de 105% do CDI que pague 15% de IR. A conclusão muda se o prazo for curto e a alíquota for de 22,5%: nesse caso, a LCI se torna ainda mais vantajosa em termos relativos.
O erro comum é comparar as taxas nominais. Dizer que «CDB de 11% é melhor que LCI de 10%» ignora que o primeiro paga imposto e o segundo não. A comparação correta é sempre líquida.
Carência, liquidez e o mito do resgate imediato
A maioria das LCIs tem carência de 90 dias. Antes desse prazo, o resgate não é permitido. Depois, a liquidez depende do contrato: algumas permitem resgate a qualquer momento, outras só no vencimento, e outras ainda cobram taxa para sair antes.
Para reserva de emergência, a LCI não é a melhor escolha, justamente por causa dessa amarra. O Tesouro Selic, com liquidez diária, cumpre melhor o papel. A LCI funciona bem para dinheiro que pode ficar parado por um ou dois anos.
Existe também a possibilidade de vender a LCI no mercado secundário, mas isso é raro para pessoa física e costuma envolver deságio. Na prática, quem compra LCI deve estar disposto a levar o título até o vencimento.
FGC: a garantia que muda o cálculo
A LCI conta com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, até R$ 250 mil por CPF por instituição financeira, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Com R$ 200 mil, o valor cabe integralmente na garantia de um único banco.
Isso não elimina o risco, mas reduz bastante. O FGC não cobre títulos públicos nem fundos, e o prazo de pagamento em caso de intervenção pode se arrastar por meses. Ainda assim, para valores até o limite, a proteção é um diferencial relevante em relação a um CDB de banco pequeno sem cobertura.
Quem tem mais de R$ 250 mil deve dividir entre instituições diferentes. Concentrar tudo em um banco médio por causa de 0,3 ponto percentual a mais de taxa é uma troca ruim quando o valor excede a garantia.
LCI, Tesouro Selic, CDB ou poupança
Com R$ 200 mil, a LCI de 92% do CDI entrega R$ 1.578 líquidos. O Tesouro Selic entrega cerca de R$ 1.453 líquidos, com liquidez diária e risco soberano. O CDB de 100% do CDI entrega R$ 1.453, com cobertura do FGC. A poupança entrega R$ 1.020.
A LCI ganha em rendimento líquido, mas perde em liquidez. O Tesouro ganha em flexibilidade. O CDB fica no meio. A poupança só faz sentido para quem precisa de simplicidade absoluta ou já tem o valor em conta e não quer migrar.
Uma divisão razoável usa LCI para a parcela de médio prazo, Tesouro Selic para a reserva e CDB para diversificar emissores. O ideal é não concentrar tudo em uma única modalidade apenas porque a taxa do dia parece melhor.
Riscos e cuidados
O primeiro risco é de crédito: se o banco emissor quebrar, o FGC paga, mas com prazo e burocracia. O segundo é de liquidez: resgatar antes pode não ser possível. O terceiro é de reinvestimento: no vencimento, a taxa disponível pode ser menor.
Há ainda o risco de inflação. Um rendimento de 9,89% ao ano com inflação de 4,5% deixa ganho real perto de 5,2%. É positivo, mas menor do que o número nominal sugere. Para objetivos longos, vale considerar títulos indexados ao IPCA.
Opinião de especialista
Eduardo Sampaio Rocha, analista de renda fixa, a nosso pedido: «A LCI é o produto que mais gera confusão por causa da isenção. Vejo gente comparando 92% do CDI com 100% do CDI e concluindo que o segundo é melhor, quando o primeiro ganha depois do imposto. Minha recomendação é sempre montar a conta líquida e depois olhar a liquidez. Se o dinheiro pode ficar dois anos parado, a LCI é excelente. Se pode ser necessário em três meses, não é. Rentabilidade sem prazo compatível é ilusão contábil».
Perguntas frequentes
Quanto rende R$ 200 mil na LCI por mês?
Cerca de R$ 1.578 com taxa de 92% do CDI e CDI a 10,75% ao ano. O valor é líquido, pois a LCI é isenta de IR.
A LCI paga Imposto de Renda?
Não para pessoa física. A isenção é o principal atrativo do produto.
Posso resgatar quando quiser?
Depende do contrato. A maioria tem carência de 90 dias e algumas só permitem resgate no vencimento.
É melhor que o Tesouro Selic?
Rende mais no exemplo, mas tem menos liquidez. Para reserva de emergência, o Tesouro é mais adequado.
Qual o risco de crédito?
O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF por instituição. Com R$ 200 mil, o valor está integralmente coberto em um único banco.
LCI de 92% equivale a qual CDB?
A cerca de 108% do CDI, considerando IR de 15%.